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A pós-modernidade de Lars Von Trier
¿¿Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada¿¿. Os versos de Vinícius de Moraes ilustram bem o que é Dogville, a cidade. Surpreendente, acho que seria a palavra para definir o que é Dogville, o filme. Extremamente pós-moderno, Dogville não nada fácil de se compreender e exige, em alguns momentos, um pouco de paciência do público para aceitá-lo.
O diretor e roteirista Lars Von Trier, criador do movimento Dogma 95, dessa vez foi longe demais. Pois é, que bom! Não satisfeito em banir a trilha sonora e a iluminação não ambiente, o dinamarquês Lars expõe toda a sua criatividade ao criar Dogville, uma pequena cidade americana, à margem de tudo e de todos, representada no filme por traços no chão e simples objetos como camas e cadeiras. Ou seja, não há cenário, nem ambientação.
No contato inicial, o telespectador, acostumado a grandes produções e cenários bem ambientados e mirabolantes, se sente deslocado. A impressão que se tem é que você vai assistir a uma grande peça de teatro. Mas tudo é uma questão de costume, pois logo o telespectador percebe que o cenário é apenas um detalhe e se vira para o que realmente importa no cinema, os diálogos, as interpretações e a história. E com diálogos ricos e bem trabalhados, grandes interpretações e uma história um pouco longa, mas cativante, Lars consegue arrebatar os telespectadores facilmente. Destaque também para a narração de John Hurt, muito bem conduzida e essencial para o filme.
A história é a seguinte: A época é durante a Grande Depressão, período de muita dificuldade para os habitantes dos Estados Unidos. Grace (Nicole Kidman) está fugindo de gângsters e vai buscar abrigo na pequena cidade de Dogville. Lá, ela é acolhida pelo jovem Tomas Edison Jr (Paul Bettany) que promete ajudá-la. Eles se reúnem com a dezena de habitantes da cidade e estes decidem que ela poderá ficar, mas somente se Grace passar a contribuir com a cidade, através da prestação de alguns serviços. Porém, conforme o risco que é abrigar Grace vai crescendo, as exigências das pessoas vão aumentando e eles vão revelando suas verdadeiras personalidades.
Acima de tudo, Dogville é um retrato das ações humanas. Mostra que, na sociedade, até o ser que aparenta a maior inofensividade pode esconder uma personalidade contraditória e cruel. Nada mais pós-moderno do que isso, afinal, no mundo pós-moderno as pessoas não são capazes de conhecer profundamente os seus melhores amigos e nunca visitaram as casas deles (pense nisso e tente perceber a quantas pessoas você confiaria sua alma, mas não conhece nem a sala de estar).
O elenco teve de ser escolhido a dedo, pois é muito bom, e até agora estou me perguntando como que a Nicole Kidman foi aceitar um papel como esse? Um filme não Hollywoodiano, com uma proposta tão diferente daquelas que ela já participou. Parabéns à bela Nicole que encarou o desafio e o tirou de letra. Ótimo também o tal do Paul Bettany, desconhecido, mas talentoso. O pouco número de personagens presentes na trama permitiu a Lars trabalhar cada um com esmero e cuidado. O resultado foram personagens complexos, mas muito bem apresentados.
Outro ponto forte: trata-se de um filme sem retoques. Não só do ponto de vista aparente, mas também nas ações das personagens. A ações são aquilo que estão ali, não foram retocadas em nome do pudor ou na busca pelo belo. Acho que o descompromisso do autor possa ter motivado tal espontaneidade quantos aos atos.
No final, um desfecho surpreendente, mas lógico, ou você não faria aquilo? Condenável pelo ponto de vista ético, porém justificável do ponto de vista humano, o final traz ao telespectador um sentimento, pelo menos, de justiça.
É bom lembrar que Lars prometeu uma trilogia, da qual Dogville é o primeiro filme. Os Estados Unidos são o enfoque desta trilogia que terá como segundo capítulo um filme de título Mandalay, que já tem o roteiro pronto e vai retomar a história de Dogville algumas semanas depois do seu fim. A terceira vai se chamar Wasington (sem h mesmo). O interessante é que Von Trier nunca pisou em terras norte-americanas.
Reflexão: O filme nos faz entender que o homem não é um ser perfeito, pois está sujeito aos seus sentimentos e na maioria das vezes é levado a agir de acordo com eles.
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